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Publico, 6/4/03
Gehry Vê Parque Mayer como "Um Bairro de Teatros" com Tudo à Volta
Por FERNANDA RIBEIRO
Domingo, 06 de Abril de 2003
"Um bairro de teatros fora da Avenida da Liberdade, um lugar secreto onde se vai", a pé. É isto que o arquitecto canadiano Frank Gehry quer para o Parque Mayer. Ontem apresentou em Lisboa seis propostas para o recinto, nas quais se encaixa um pouco de tudo - casino incluído.
Quatro teatros - um com 800 lugares, dois com 400 lugares cada e uma sala experimental, com 200 lugares - são o prato forte das várias propostas, que ainda não são finais, como sublinhou. A eles se juntam um anfiteatro ao ar livre - em escadarias que sobem a parede abrupta que liga o recinto ao Jardim Botânico, e tendo como palco as traseiras do teatro principal - e um clube de jazz. Também há restaurantes, lojas, um museu de moda e uma mediateca, bem como um complexo com um hotel, o casino e ainda dois blocos de habitação, com 30 apartamentos cada.
Pode parecer muito, mas, como salientou Gehry, que se mostra cada vez mais entusiasmado com este projecto, é uma construção que "cabe nos parâmetros" urbanísticos da zona, "sem que, para já, seja preciso quebrar qualquer regra" de ordenamento."A intenção é fazer com que o complexo de edifícios se encaixe perfeitamente na comunidade. E que, quando estiver construído, pareça que sempre lá esteve", sem ser uma cópia do antigo.
O que o arquitecto pretende criar "não será uma reconstrução histórica, mas uma forma nova, moderna, do século XXI, de lidar com as questões relacionadas com o sítio, com as pessoas do teatro, com a vida da cidade".
Dentro do Parque Mayer andar-se-á a pé. Não haverá carros, embora o projecto preveja um estacionamento para 400 automóveis. A questão terá, no entanto, de ser melhor estudada, através de "um estudo de tráfego sério".
"O problema com o estacionamento é que ele tem de ter acesso ao local e ainda não percebemos bem o tráfego. Se for possível, pensamos que seria bom que o acesso fosse por baixo do metro, ligando a um parque subterrâneo sob a Avenida da Liberdade".
Gehry sublinhou que as maquetas que trouxe para Lisboa são ainda uma fase preliminar do seu trabalho. "Os estudos não são uma conclusão final. Apenas abrem uma porta, mostram-nos o que é possível. Proponho-me vir cá no próximo mês e partilhar o projecto com o público,. Faço tenções de ouvir a comunidade, o presidente da câmara, os artistas, o ministro da Cultura, e incorporar os desejos da cidade neste projecto", afirmou."Quando voltar trarei mais maquetas, e vou mostrar a evolução. Gostaria de ouvir os vossos comentários e o que as pessoas pensam do projecto".
Sobre a possibilidade de haver um casino no Parque Mayer explicou que, quando veio a Lisboa pela primeira vez, estava confuso e não percebia a questão. Agora, com a ajuda dos actores, acha que já a entende. "O Parque Mayer é um lugar mágico por causa da sua história: a revista, cuja existência tinha a ver com dizer a verdade, num momento em que era difícil dizer a verdade. Essa é a alma do Parque Mayer", defende.
Edifício mais alto com 30 metros
Sublinhando que ninguém o pressionou para fazer o que quer que seja - "tem sido um processo muito livre até aqui e acho que assim vai continuar" -, Gehry explicou que entende que o casino se pode incluir no projecto sem estragar a escala. "O presidente da câmara disse que eu não tinha de o fazer quando lhe pareceu que eu não estava a gostar da ideia. Agora que estudámos a questão, achamos que o casino pode fazer parte do projecto", conta. E, como lhe disseram os actores, "pode até ser uma energia, porque, de certo modo o Parque Mayer é um fruto proibido: há um lado sexy nele. E o casino é uma das coisas que tem essa qualidade".
"Há uma mistura que tem de ser feita entre os teatros, a comunidade, o Parque Mayer, o Jardim Botânico e a Av. da Liberdade. Sem destruir o tecido, sem o sobrecarregar", avisa.
O projecto terá também usos comerciais, restaurantes e lojas. "Mas não será um centro comercial. Isso seria fora da escala do que queremos fazer. É mais uma aldeia de teatros, um lugar secreto onde se vai. Esse é o carácter que queremos manter", explica.
Gehry referiu-se também a outra possibilidade: "Há um desejo de ali ter uma escola de música, que pode ficar na parte de cima da Praça da Alegria. Se não houver objecções, é isso que iremos desenvolver".
O mais alto edifício previsto eleva-se a 30 metros - cerca de dez andares. Nenhum dos blocos ultrapassará a altura dos prédios da Avenida da Liberdade.
JN, 6/4/03
Lisboa :
Maqueta do Parque Mayer inclui casino à superfície
Hipóteses Frank Gehry apresentou ontem as suas primeiras ideias para o local Estudos preliminares apontam para a construção de quatro teatros, dois edifícios de habitação e um hotel
Fátima Mariano e Gina Pereira
As primeiras cinco maquetas do novo Parque Mayer incluem um casino à superfície, quatro teatros, um hotel, dois edifícios de habitação, vários espaços comerciais, dois museus e um anfiteatro ao ar livre, disse, ontem, aos jornalistas, o arquitecto Frank Gehry, na sua terceira visita a Lisboa, a primeira em que apresentou publicamente as suas ideias preliminares para o local.
Gehry explicou que "são só ideias", mas que pretendem provar que "é possível" juntar várias utilizações no recinto, mantendo as características originais de um espaço ligado aos espectáculos. "Ainda não são estudos conclusivos, mas abrem já algumas portas",
sublinhou, avisando: "Não quero uma reconstrução histórica do Parque Mayer, mas sim uma construção moderna".
O arquitecto tem total liberdade para apresentar as propostas que entender, cabendo à Câmara de Lisboa aprová-las ou não. Santana Lopes espera que "ninguém estrague a magia" que se está a tentar criar. "Não será feito nada que tecnicamente seja perigoso, nem que financeiramente seja desastroso, mas sim, que culturalmente seja proveitoso", garantiu o autarca.
Segundo o arquitecto, a única dificuldade que se lhe colocou até agora prende-se com os acessos a um hipotético parque de estacionamento subterrâneo. "Será necessário aprofundar os estudos referentes ao tráfego", explicou.
Frank Gehry esteve na cerimónia de tomada de posse dos novos ministros de Durão Barroso, na primeira fila e ao lado do presidente da CML. Também Jorge Sampaio fez questão de se dirigir ao arquitecto, no decurso da cerimónia, para lhe dar um aperto de mão e,
no final, acabou por recebê-lo, numa sala à parte, juntamente com Santana Lopes.
À noite, Gehry foi um dos convidados do primeiro-ministro, que ofereceu um jantar a alguns arquitectos nacionais e estrangeiros, entre os quais Gonçalo Byrne, Manuel Graça Dias, Norman Foster e Jean Nouvel, entre outros. Frank Gehry parte esta madrugada paraLos Angeles.
DN, 8/4/03
Frank Gehry traz maqueta com casino no Parque Mayer
LUÍSA BOTINAS
Das quatro propostas de estudos de volumes para a reabilitação e reconversão do Parque Mayer que Frank Gehry trouxe a Lisboa este fim-de-semana há uma que o arquitecto norte-americano destacou e na qual o casino fica localizado dentro do recinto, à superfície, junto à Travessa do Salitre, inserido num conjunto que incluiu ainda um hotel com 82 quartos e um restaurante na cobertura do edifício. A receber quem entra, uma grande praça.
Mas o aspecto mais inovador da solução _ provisória _ é a criação de uma ligação ao Jardim Botãnico através de uma escadaria/anfiteatro. «Trata-se de uma passagem para o Jardim Botânico com a dupla função de anfiteatro que poderá servir de recinto a espectáculos ao ar livre. Este anfiteatro está virado de frente para as traseiras do edifício que alberga o principal teatro. O backstage deste tem uma abertura que permite virar o palco para o anfiteatro. A versatilidade da solução é o que a torna original.
Na proposta estão previstos, ao todo, quatro teatros. Um com 800 lugares (o principal), duas outras salas de média dimensão com 400 lugares cada e ainda uma sala para teatro experimental (black box) com 200 lugares.
Quanto a estacionamento, os dados disponíveis indicam, segundo o arquitecto que, «para já, só é possível construir um nível subterrâneo com capacidade para 400 lugares. Depois de efectuados mais estudos veremos como serão feitas as entradas e saídas dos parqueamentos e se será viável construir sob a Avenida da Liberdade, debaixo do túnel do metro, mais dois níveis de estacionamento », disse Gehry.
O projectista contempla ainda neste estudo preliminar um clube de jazz, que Gehry sugere que fique localizado do lado direito de quem entra no Parque. Um Museu da Moda e uma mediateca deverão ficar do lado esquerdo.
Colocados simetricamente, dois blocos de apartamentos perfazem um total de 60 apartamentos. Um deles fica junto ao Jardim Botânico, o outro, localizado do lado da Praça da Alegria, é o edificio mais alto, «mas a sua cércea não ultrapassa a dos imóveis da Avenida da Liberdade», garantiu Gehry, sublinhando: «não violámos regras urbanísticas.»
Uma única rua assegura a circulação estritamente pedonal no Parque _ «no cars, no cars», insistiu Gehry. Esta artéria dá igualmente acesso à zona comercial localizada nos pisos térreos, mas que o arquitecto se apressou a esclarecer que «são lojas e não um centro comercial».
«Fizemos estas maquetas e prometemos trazer mais, pois é a opinião da comunidade que nos interessa», afirmou Gehry, lembrando que além dos artistas e do presidemte da Câmara, quer ouvir o ministro da Cultura sobre este mix que se propõe fazer entre teatros e jardim botânico.
Recusando a ideia de que vai operar uma reconstituição histórica do que foi o Parque Mayer, o arquitecto diz que está a fazer uma abordagem do século XXI, «de tal forma que no final, quando olharem para esta solução, ela se ajuste ao sítio. Como se sempre ali tivesse estado». «Ninguém me condicionou para fazer o que quer que seja», disse, a propósito da questão do casino. Este, aliás, pode representar uma «energia adicional à magia do sítio conferida originalmente pelos teatros e pela revista. O casino está muito ligado à imagem do fruto proibido e era isso também que estava na essência do Parque Mayer. Uma espécie de lugar secreto às portas da grande avenida». Santana Lopes aproveitou para dizer que o projecto «não será economicamente desastroso, nem tecnicamente perigoso, será culturalmente vantajoso».
ESTRELAS EM LISBOA. Para além de Gehry, estiveram ontem em Lisboa, a jantar com Durão Barroso, os arquitectos Jean Nouvel e Norman Foster, ambos com projectos em vias de desenvolvimento na capital.
Public, 31/5/03
Novo Parque Mayer: "Já Se Começa a Sentir a Escala e o Ambiente"
Por F.R.
Sábado, 31 de Maio de 2003
As propostas de Frank Gehry para o Parque Mayer, apresentadas há cerca de uma semana em Lisboa, estão a despertar o agrado de vários arquitectos portugueses, em particular os que tiveram oportunidade de trocar impressões com o arquitecto canadiano. "Já se começa a sentir a escala e o ambiente" dizem, nesta fase em que ainda não é de um projecto que se fala, mas de um "estudo preliminar já bastante avançado".
Curiosos também, mas algo inquietos, estão muitos lisboetas, desejosos de conhecer melhor o que se vai fazer no Parque Mayer, para o qual a câmara encomendou um projecto a um arquitecto de prestígio - que será pago pelos contribuintes - mas do qual apenas conhecem o que vai sendo divulgado na comunicação social, a cada visita a Lisboa do autor do Guggenheim de Bilbao. E o que conhecem sabe a pouco. A presidente da Ordem dos Arquitectos, Helena Roseta, reivindica o debate prometido por Santana Lopes. E há quem alerte para eventuais riscos nas opções que estão a ser tomadas.
O PÚBLICO foi ouvir as opiniões dos que estão mais a par deste "andamento" do projecto - expressão de Manuel Graça Dias - e também a dos que se sentem ainda à margem, ou até desconfiados da prometida "magia" que Gehry diz querer trazer aquele pedaço de Lisboa. "Não sei o que é arquitectura mágica", disse um dos arquitectos contactados, que, apesar de algumas dúvidas iniciais, sublinha agora o "grande empenho e envolvimento de Gehry" nesta obra, da qual se espera que contribua para "criar um bocado de cidade", com "uma vida urbana intensa" e tudo o que isso tem de bom.
Gehry Reinventa Um Parque Mayer Que Nunca Existiu
Por FERNANDA RIBEIRO
Sábado, 31 de Maio de 2003
João Luis Carrilho da Graça
Um projecto capaz de "criar um bocado de cidade com vida intensa"
Conhece as propostas de Frank Gehry de perto - até porque as viu, e com ele trocou impressões no encontro promovido pelo presidente da câmara, na semana passada, no Palácio da Mitra, onde estiveram também Nuno Mateus e Manuel Graça Dias. Parecem-lhe "bastante interessantes", sobretudo como forma de intensificar a vida numa área de Lisboa que a perdeu ao longo das últimas décadas.
"Aquela situação é complicada, e todos nós temos consciência de que a Avenida da Liberdade perdeu intensidade urbana, está bastante terciarizada e o que se pretende é ter ali um bocado de cidade, com vida intensa. Em termos programáticos, o projecto do arquitecto Gehry parece-me bastante positivo, com os quatro teatros, espaços de habitação e hotéis", diz, salientando que o conteúdo desta proposta lhe agrada bastante mais do que o do anterior projecto de Norman Foster, que fora convidado por João Soares.
"Foster é um excelente arquitecto, mas o que o programa previa era basicamente terciário e comércio", o que não resolveria o problema daquela zona da cidade, no entender de Carrilho da Graça.
"O casino desapareceu dali, o que me parece positivo, porque, independentemente de não gostar de casinos, acho que ali, naquele espaço, o casino era desajustado. Há um aspecto que me arrepia um bocado no programa, a ligação ao Jardim Botânico [o anfiteatro, nas traseiras do teatro principal]. Isso é o que me parece mais complexo, porque o Jardim Botânico nos dá aquela sensação poética de abandono, de que gostamos, e não convém que passe a ser devassado pelo ruído e por um movimento intenso de pessoas. Um auditório exterior é um elemento intemporal que funciona bem, mas faz-me impressão que o jardim passe a ser muito movimentado. Disse-o ao arquitecto Gehry, mas ele diz que a ideia é controlar bastante aquela passagem. E desde que aquilo lá em cima seja contido, estou completamente de acordo em termos de programa".
Já quanto à imagem proposta por Gehry, Carrilho da Graça acha "interessante aquela sugestão de mini-broadway", que pode ser atractiva. E não acha que se coloque um problema de densidade a mais no que está projectado, desde que se resolvam os problemas de trânsito e se evitem congestionamentos. "O problema da volumetria coloca-se quando há colisão com as colinas, mas, nesse ponto, o Parque Mayer não é muito crítico. Se os volumes forem arquitectonicamente controlados... não há nada criticável neste projecto", afirma.
Sobre o processo desenvolvido pelo actual executivo camarário, Carrilho da Graça considera que desde o início até agora, "tem havido avanços positivos". Não vê qualquer problema no facto de Santana Lopes ter convidado um arquitecto estrangeiro. "Acho legítimo que se convidem arquitectos de outras partes do mundo, como nós também somos convidados para fazer projectos noutros países. E se me perguntarem se, neste momento, para Lisboa, o Gehry não será melhor... Se calhar, é", diz. Mas também lhe ocorria um arquitecto português. "Acho que Manuel Graça Dias era um excelente arquitecto para este projecto".
Nuno Miguel Mateus
"Parece-me que vai sair dali uma coisa patrimonial"
Entusiasmado e muito curioso está o arquitecto Nuno Mateus. "Penso que estamos no bom caminho para ter um Gehry de eleição. "Parece-me que vai sair dali uma coisa patrimonial, e acho que este aspecto é muito importante ali. Enquanto contribuinte e arquitecto estou mais tranquilo", afirma.
O que Gehry apresentou agora em Lisboa é "um estudo preliminar, para conhecer a dimensão e provocar a discussão sobre o programa" para o Parque Mayer. "Há uma estratégia de ocupação que deixa ainda bastante em aberto", o que é bom, diz Nuno Mateus. "As coisas mais tangíveis só se definem numa fase mais tardia", afirma.
"Surpreendeu-me bastante pelo empenho e envolvimento. Eu tinha algumas dúvidas de que Gehry fizesse daquilo um projecto seu, mas isso foi atingido. Há uma grande movimentação de recursos e um investimento extraordinário" do arquitecto canadiano e dos seus colaboradores.
Antes, não o tinham convencido muito as expressões usadas por Gehry quando dizia que iria fazer algo mágico. "Não sei o que é arquitectura mágica". Mas agora, no vídeo que foi exibido na Mitra, "já se viu um rasto bastante grande deste trabalho no escritório de Gehry", afirma Nuno Mateus - que conhece bem ateliers de outros grandes arquitectos, pois durante quatro anos trabalhou em Nova Iorque com Peter Eisenman, e com o arquitecto vencedor do projecto para o Ground Zero (local onde estavam as Twin Towers), Daniel Lieberskind.
Na actual fase, e nas várias maquetas do Parque Mayer, "já se começa a sentir a escala e o ambiente": "Parece-me muito urbano e espero que se esteja a fazer um bocado de cidade, um bocado de Lisboa. Sempre me bati para que não fizessem daquilo uma "toon town" (cidade de desenhos animados), à imagem do filme Roger Rabbit. Agora, já há mais habitação, para não ser só teatros. Acho que não se deve carregar demasiadamente de teatros. Isso tem que ser visto em termos de necessidade de cidade. Até porque a zona do Parque Mayer não tem grandes acessos. Neste momento, é um funil e carregar o espaço com estruturas que requeiram acessos fáceis é um risco", afirma.
Nuno Mateus preferiria até que houvesse apenas um teatro principal, "mais flexível, que se pudesse subdividir em vários tipos de teatro, consoante o espectáculo, e uma 'black box', a caixa negra adaptável a qualquer peça".
Nesta proposta agrada-lhe "uma certa ambiguidade que é criada pela partição de volumes". E explica: "Os maiores são-no por somatório de volumes menores. Dissimulam-se. E a estratégia é muito simples. Há um edifício central e depois construção periférica ao recinto, o que deixa uma rua intersticial". O único aspecto que acha menos bem resolvido é o da ligação ao Jardim Botânico, que deveria ser algo mais do que um anfiteatro, porque nem sempre o clima de Lisboa permite a sua utilização. "Veja-se o que acontece com a da Gulbenkian", que muitas vezes exige que se leve cobertor e onde os músicos têm de esperar que os aviões passem.
Nuno Mateus destaca uma preocupação a ter em conta futuramente: o acompanhamento na fase de construção. "Temos meios técnicos em Portugal, mas é preciso que haja um envolvimento muito grande a seguir ao Gehry. O desenvolvimento construtivo e a ligação à indústria terão de ser aspectos a abordar muito seriamente. E não é cedo para pensar nessa teia, que tem de ser garantida. Não é só garantir o cumprimento dos prazos". porque, lembra, "Gehry também tem em carteira projectos que foram 'flops' financeiros e obras que pararam a meio".
De resto, considera que é cedo para se pedir uma definição maior, por exemplo, nos materiais a usar. "Isso deve estar em aberto. Querer definir já muitas coisas é condenar o projecto. O que espero é que ele se vá tornando cada vez mais cidade, na sua forma mais simples", conclui.
Manuel Graça Dias
"Se havia uma alma do Parque Mayer ela sai reforçada e mais intensa"
"Fiquei muito agradado com o andamento. Aquilo não é ainda um projecto, e, nem sequer um estudo prévio, isso é que o arquitecto Gehry pensa apresentar no Verão", ressalva Manuel Graça Dias, à partida, afirmando estar a pronunciar-se sobre o que chama "um estudo muito avançado e com bastante envolvimento na problemática do lugar".
"Do meu ponto de vista esse estudo acerta bastante no alvo, em termos de esquema de ocupação. O modo como Gehry o abordou pareceu-me impecável", afirma. "Mas para os cidadãos, as pessoa da rua, provavelmente a visão daqueles desenhos e volumes só começa a ter interesse quando eles começarem a ganhar formas".
"Aquilo não é o grande gesto de síntese, as volumetrias não estão num terreno vazio, e vê-se, aliás, que há ali um caminho bastante sofrido, tira, põe, volta a tirar, até encontrar um certo acerto a nível de distribuição das diversas valências".
Graça Dias descreve com algum detalhe o que foi apresentado. "Há um grande teatro, mais ou menos alinhado com a entrada do Parque Mayer, em que a caixa de palco fica virada para trás, para o Jardim Botânico. O muro alto que os separa fica disfarçado, integrando uma espécie de escadaria que também dá para as pessoas se sentarem e, em noites quentes de Verão, assistirem a espectáculos, já que o teatro abre para trás e vai permitir uma utilização do edifício muito curiosa: os actores podem estar dentro do edifício, no palco, mas virados para espectadores no exterior.
"Esse grande teatro tem à frente uma torrezinha muito elegante, que vai ligando pelo interior os vários pisos. Na cobertura há um 'night club' e o acesso é feito através dessa torrinha que serve também de suporte a anúncios de espectáculos". E assim, "não é só um teatro, não é um mono que só serve para uma função, é um edifício que pode ter uma vida muito grande ao longo do dia", sublinha Graça Dias. "Adossado aos lados do terreno e entalado entre os seus limites há uma espécie de pequenas ruas, muito estreitas e labirínticas, onde há sempre lojas e restaurantes, que retomam o que se sentia no Parque Mayer quando estava a funcionar. Depois há mais uns teatros, uma escola de artes, uma 'black box' à entrada, e um clube de jazz, que suponho se destine a dar uma sede condigna ao Hot Club. E há ainda três torres, numa espécie de triangulação, que penso serem para habitação".
De tudo isto resulta, para Graça Dias, que, "se havia uma alma do Parque Mayer ela sai reforçada e mais intensa" e Gehry "reinventa um Parque Mayer que nunca existiu, com muito mais categoria e qualidade e onde é possível plasmar a nostalgia e os sonhos do futuro".
"O resultado é muito próximo da matriz que gostaríamos de ter ali mas nunca tivemos, porque aquilo era um bocado pindérico", remata.
Frederico Valsassina
"Não tenho dúvidas de que foi a influência de Gehry a determinar o afastamento do casino"
Conhece as propostas de Gehry pelos jornais e televisão, como qualquer outro cidadão. E agradam-lhe. "Parece-me que está a ser feita uma coisa com pés e cabeça".
"Fiquei contente por saber que o casino já não ia para o Parque Mayer. Das poucas coisas que já vi das propostas parecem-me interessantes, até pela abordagem de forma escultural nas peças de Gehry. Outra coisa que me parece interessante explorar é a ligação ao Jardim Botânico, que é tão pouco visitado".
Atrai-o também a "convivência de públicos" movimentando-se entre restaurantes, lojas e salas de espectáculo. E espera que existam novas ligações pedonais ao jardim, à Praça da Alegria, e às ruas circundantes, para as pessoas se poderem deslocar a pé pela zona.
"De resto, acho que não vai ser a arquitectura que vai revitalizar o teatro de revista. Ele já morreu. E o Parque Mayer morreu porque o teatro de revista morreu, embora as pessoas não gostem de ouvir isso. Mas acho que é bom ter um arquitecto com o prestígio de Gehry a fazer o projecto, para ser ele a impôr o programa e não o inverso, ser o programa a comandar a arquitectura".
"Não tenho dúvidas de que foi a influência de Gehry a determinar o afastamento do casino do Parque Mayer, que não comportava uma unidade daquelas", afirma Valsassina. Acha que para revitalizar a zona "vai ser preciso arranjar atractivos, para que as pessoas vão lá e haja uma transformação total de mentalidades", porque "não será o público do teatro do Politeama que vai frequentar o futuro Parque Mayer": "Ele tem que ter um público jovem".
Para este arquitecto, a intervenção "vai ser mais ampla e vai potenciar a revitalização não só do parque, mas de toda área. E o que é interessante é, não só o facto de se ter um projecto de Frank Gehry, mas a possibilidade de se mexer naquela zona da cidade".
Helena Roseta
"Está a faltar debate público"
A presidente da Ordem dos Arquitectos não se pronuncia sobre o projecto de Gehry. "Não conheço. Não foi ainda apresentado publicamente. E não houve até agora o debate que o presidente da câmara prometera fazer. Não se discutiu nada e o que aparece de vez em quando é uma novidade sobre o programa, mas debate nada".
Quase feroz quando fala da forma como o presidente da câmara tem conduzido o futuro do Parque Mayer, Helena Roseta - que não aceitou um convite do presidente da câmara para um jantar com Gehry, também na Mitra, há alguns meses - salienta que "debater um projecto do arquitecto Gehry é sempre estimulante, mas nós [a Ordem] queremos debater a cidade, porque a montante do projecto está a discussão sobre a cidade. E acho que houve uma aceleração processual".
O debate público, salienta, foi uma promessa, feita por Santana Lopes à Ordem dos Arquitectos, que não está a ser respeitada.
"Em todo o lado os grandes arquitectos se submetem a debate público, até os do 'Ground Zero', em Nova Iorque, para onde houve concurso. Em Bilbao também houve concurso e tudo aquilo [a criação do Guggenheim e a intervenção na zona] foi muito discutido. Nós também queríamos a história toda: os procedimentos e os bons resultados, as boas práticas. Mas é isso que nos falta, boas práticas".
Para a arquitecta, a atitude do presidente da câmara cria "instabilidade". "Ele anunciara que ia pôr ordem nas coisas, que não haveria decisões arbitrárias, que os procedimentos iam ser os legais. Ora a lei obriga que sobre esta matéria haja debate público, e ele está a faltar".
Francisco Silva Dias
"Um misto de alegria e nostalgia"
O arquitecto é um eleito (do PCP) na Assembleia Municipal de Lisboa, e como os restantes aguarda que o presidente da câmara cumpra o que prometeu, ao afirmar que "gostaria que os deputados pudessem conhecer o projecto de Gehry, e encontrar-se com ele", numa das suas próximas visitas à capital. Não foi ainda nesta última apresentação, feita na Mitra na semana passada, que os deputados municipais tiveram essa hipótese. Por isso, Silva Dias só se pronuncia genericamente. "É de louvar que já não tenha o casino", afirma, apesar de entender que "antes de se encomendar o projecto devia-se ter debatido a questão" da revitalização daquela zona de Lisboa.
"Independentemente de um certo desgosto por ver a arquitectura reduzida a uma questão de marketing, em que uns preferem Foster, outros Gehry, acho que o resultado será espectacular e que dali sairá um belo objecto", afirma.
Mas, acrescenta, "esta beleza tem custos". "Estou convencido de que vai ter impacto no Jardim Botânico. O Capitólio desaparece, de modo que há uma certa nostalgia e apreensão, uma vez que se trata de uma obra notável. Gostaríamos de vê-lo recuperado.Volta-se às propostas de habitação, com torres de dez andares, quando me parece que aquilo não cabe ali muito bem. Acho que vai agravar os problemas da Avenida da Liberdade. Tenhamos esperança de que seja então um espectáculo", afirma, embora saliente logo a seguir: "mas não é aquilo que a cidade precisa". "Sinto um misto de alegria e nostalgia", conclui.
Hoje houve uma conferência do Arquitecto Frederico Valsassina, antigo aluno da Faculdade.
Frederico Valsassina Arquitectos, Lda.
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Frederico Valsassina Arquitectos, Lda.